Dias antes da abertura das Paralimpíadas, a Trégua Olímpica foi violada novamente (Divulgalgação/COI)
A chamada “Trégua Olímpica”, resolução do COI (Comitê Olímpico Internacional) e da ONU (Organizações das Nações Unidas) para promover a paz mundial através do esporte, voltou a ter sua utilidade questionada no último final de semana. Isso ocorreu devido ao ataque coordenado de Estados Unidos e Israel ao Irã na madrugada de sábado (28).
Como consequência direta, a ação já deixou mais de 500 mortos, só no Irã, entre eles o Aiatolá Ali Khamenei, líder supremo da república islâmica. Além disso, mísseis iranianos também causaram mortes em Israel e reflexos em outros países do Oriente Médio, como Emirados Árabes, Catar e Kuwait, que sofrem com danos em hotéis e aeroportos.
+ Leia e assine a newsletter “Zona Mista”, no Substack
Nesse sentido, o efeito de toda essa tragédia geopolítica é que ela expõe a inutilidade total da tal Trégua Olímpica.
Da mesma forma como aconteceu quatro anos atrás, quando a Rússia invadiu a Ucrânia após o final das Olimpíadas de Inverno Pequim-2022, a Trégua foi violada novamente. Lembre-se que as Paralimpíadas de Inverno Milão/Cortina começarão na próxima sexta-feira (6).
No entanto, sabe-se que não haverá qualquer tipo de sanção a americanos ou israelenses. Os atos cometidos, entretanto, foram idênticos (ataques sem justificativa de um país a outro),
Todavia, foi ao contrário do que aconteceu com russos e bielorrussos, que desde 2022 foram banidos do esporte mundial, com raras exceções a atletas que foram contrários às ações militares em solo ucraniano.
O que é a Trégua Olímpica?
- A tradição da Trégua Olímpica, ou “kencheria”, surgiu na Grécia Antiga, no século IX a.C. De acordo com o site oficial do COI, foi um tratado entre três reis, Ífito de Élis, Clístenes de Pisa e Licurgo de Esparta. Como resultado, garantiria a segurança dos participantes dos Jogos Olímpicos da Antiguidade.
- Posteriormente, o COI renovou a tradição na década de 1990, com o objetivo de proteger os atletas e do esporte em geral. Em 25 de outubro de 1993, ela foi recriada pela Resolução 48/11 da ONU. É renovada a cada dois anos.
- A Trégua Olímpica foi utilizada pela primeira vez em sua nova fase nas Olimpíadas de Inverno de Lillehammer-1994, por motivo de autorizar a participação de atletas da antiga Iugoslávia. Afinal, a região, que estava em meio a uma sangrenta guerra civil que culminou com o surgimento de novos países, como Croácia, Sérvia e Bósnia-Herzegovina, entre outros.
- Um dos atos mais significativos da Trégua Olímpica, com efeito, ocorreu no desfile de abertura dos Jogos de Sydney-2000, quando as delegações das Coreias do Sul e Norte (que tecnicamente ainda estão em guerra) desfilaram justas na cerimônia de abertura.

+ Acompanhe o blog Laguna Olímpico no Twitter, Facebook, Instagram e Whatsapp
Outras violações da Trégua Olímpica
Além das violações ocorridas no período dos Jogos Pequim-2022 ou agora, em Milão/Cortina-2026, ocorreram outros casos. Mais vezes do que se imagina. Confira abaixo:
- Durante os Jogos de Atenas-2004, ocorreu a Batalha de Najaf, em plena Guerra do Iraque, envolvendo os exércitos do Iraque e Estados Unidos;
- A Rússia violou a Trégua Olímpica durante os Jogos de Pequim-2008 em razão da invasão da Geórgia, em um conflito que durou cinco dias;
- A Batalha de Marjah, durante a Guerra do Afeganistão, aconteceu durante os Jogos de Inverno de Vancouver-2010;
- Em 27 de fevereiro de 2014, houve a anexação russa da Criméia. Ocorreu no período entre o encerramento dos Jogos de Inverno e início das Paralimpíadas de Inverno de Sochi (RUS);
- Em outubro de 2023, começou a Guerra em Gaza. Ela foi promovida por Israel como retaliação aos ataques terroristas do grupo Hamas. O conflito seguiu no período que antecedeu os Jogos de Paris-2024.
Leia também:
- ‘Paz olímpica’ do COI não passa de uma peça de publicidade
- ‘Trégua’ pode assegurar festa completa na Olimpíada de Inverno
- A canetada de Trump na Copa e o alerta para os Jogos Los Angeles-2028
- Boxe ganha um reforço para sobreviver nas Olimpíadas
Constrangimento ao COI

A atual escalada de violência no Oriente Médio amplia o sentimento de constrangimento do COI. A entidade usar a Trégua Olímpica como uma dos pilares do Movimento Olímpico. Desse modo, Kirsty Coventry, atual presidente do COI, fez um discurso na sede da ONU, em novembro de 2025, exaltando a adoção da resolução. O discurso na ocasião soa até ingênuo.
“Hoje, ao adotarem esta resolução, lembramos que o Movimento Olímpico e as Nações Unidas compartilham o mesmo propósito: unir as pessoas, defender a dignidade humana e construir pontes de paz. Ao proteger o esporte como um espaço onde todos podem se reunir em igualdade, reforçamos esses valores compartilhados. Mesmo nestes tempos sombrios de divisão, é possível celebrar nossa humanidade compartilhada e inspirar esperança em um futuro melhor. Trata-se de descobrir que o caminho a seguir é fazer isso juntos: como atletas, como nações e como uma comunidade global. Este é o espírito dos Jogos Olímpicos, e ele brilhará intensamente de Milão-Cortina para o mundo.”
Portanto, você acha que a Trégua Olímpica tem algum valor? Comente abaixo.


Deixe uma resposta