Trump, Infantino e a Copa do Mundo marcada pela subserviência vergonhosa da Fifa (Reprodução)
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A maior Copa do Mundo de todos os tempos (até pelo inédito número de 48 seleções participantes) chega a sua semana final e acaba sendo inevitável fazer uma espécie de retrospectiva de momentos marcantes. O mesmo Mundial que consagrou Messi como o maior artilheiro das Copas e apresentou histórias emocionantes como as do goleiro Vozinha, de Cabo Verde, também nos trouxe momentos vexatórios.
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A deportação ainda no aeroporto de Nova York do árbitro da Somália, o melhor da África, sob uma alegação não comprovada de ligação com grupos terroristas. Ou a situação vexatória da seleção do Irã, obrigada a fazer um infame bate-e-volta para sua base no México, após os jogos disputados no Mundial. Qual o motivo? Nunca se explicou realmente. Na Copa do Mundo organizada basicamente pelos americanos, nunca é preciso explicar nada. E Gianni Infantino, presidente da Fifa, cobrado por tantos absurdos no seu principal torneio, apenas dava respostas evasivas aos jornalistas.
“Relaxem, fiquem tranquilos!”
Gianni Infantino
Interferência da Casa Branca
Nada do que houve, contudo, superou o absurdo do último dia 5. A seleção brasileira havia acabado de ser eliminada da Copa pela Noruega, quando as agências publicaram o que parecia uma notícia de Primeiro de Abril. Donald Trump ligou pessoalmente para Infantino e pediu que fosse anulado o cartão vermelho do atacante americano Folarin Balogun, expulso dias antes na partida pela segunda fase, contra a Bosnia e Herzegovina.
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Foi simplesmente uma interferência direta no regulamento da competição a pedido de uma autoridade política. Nem Mussolini, quando a Itália fascista organizou a Copa de 1934, chegou a tal ponto. A Casa Branca reuniu uma verdadeira força-tarefa desde 2 de julho, dia seguinte à expulsão de Balogun, principal artilheiro dos Estados Unidos no Mundial, tentando uma saída legal para o recurso. Trump fez três ligações para Infantino, pedindo para que o cartão vermelho fosse retirado. E teve êxito.
“Obrigado à Fifa por fazer o que era certo e reverter uma grande injustiça!”
Post de Trump agradecendo a virada de mesa de Infantino, em sua rede social Truth Social
A sorte do cartola da Fifa, e da Casa Branca por tabela, é que o futebol deu um jeito de arrumar essa barbaridade. Com uma goleada de 4 a 1, mesmo com Balobun em campo, a Bélgica eliminou os americanos. Assim, evitou que a própria Copa do Mundo fosse parar no tapetão. Revoltados com o que consideraram uma injustiça sem precedentes, entraram com recurso na Fifa. Após ser negado, ameaçaram levar o caso ao TAS (Tribunal Arbitral do Esporte), o que poderia deixar o resultado da Copa 2026 em um limbo jurídico.
Alerta olímpico ligado

A inédita interferência do governo americano em pleno andamento da competição não foi só motivo de espanto e revolta no mundo do futebol. Em Lausanne, onde fica a sede do Comitê Olímpico Internacional, o caso não passou despercebido pelos dirigentes da entidade. O motivo da preocupação é óbvio: nesta terça-feira (14), faltam exatamente dois anos para a abertura das Olimpíadas de Los Angeles-2028. Embora use da diplomacia, o COI teme que Trump e outros radicais da Casa Branca voltem a esticar a corda em um evento com dimensões político-esportivas ainda maiores.
Durante uma entrevista coletiva online, após a reunião do Conselho Executivo que entre outras coisas aprovou o retorno da Rússia ao movimento olímpico, Kirsty Coventry, presidente do COI, foi perguntada sobre qual seria a postura da entidade se algo parecida ocorresse durante a Olimpíada. A dirigente optou pela diplomacia, mas deu a entender que a postura seria bem diferente no caso envolvendo a anulação do tal cartão vermelho.
“Obviamente temos acompanhado tudo de perto. Temos o Tribunal Arbitral do Esporte, que possui uma divisão temporária, uma divisão ad hoc que funciona durante os Jogos. E são eles que lidam com a resolução de todas as disputas legais de forma célere durante os Jogos, e continuarão a fazê-lo”.
Kirsty Coventry, presidente do COI
Veja também:
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Em resumo, o COI delimitou os limites que pretende suportar. Por enquanto, não quis comprar uma briga direta com Trump. Até porque desde que assumiu o cargo, há um ano, Coventry ainda não se encontrou com o presidente americano. Mas isso não deverá demorar a ocorrer, até por se tratar de algo protocolar entre quem comanda o COI e a principal autoridade política do país-anfitrião.
Nesse futuro encontro, é provável que um tema bem mais delicado esteja na mesa de discussões: a questão de liberação de vistos. Cena corriqueira nesta Copa, envolvendo delegações esportivas, árbitros, jornalistas e torcedores, o veto para a entrada de pessoas de países considerados “inimigos” aos Estados Unidos certamente será potencializado em um evento do tamanho de uma Olimpíada. Este é o tamanho do desafio que Kirsty Coventry terá pela frente nos próximos dois anos.


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