União Soviética no desfile de abertura da Olimpíada de Helsinque-1952

Delegação da União Soviética entra para o desfile de abertura dos Jogos de Helsinque-1952, a primeira Olimpíada que os soviéticos disputaram (Crédito: Wikimedia Commons)

Não tem jeito: a cada edição dos Jogos Olímpicos, acompanhamos atentamente cada uma das competições que compõe o programa esportivo. Mas uma das maiores curiosidades é ver a evolução diária do quadro de medalhas daquela Olimpíada. Isso interessa a torcedores, jornalistas e até mesmo aos atletas.  

A classificação dos pódios conquistados por cada país é publicada por todos os jornais e portais de internet. Além disso, é exibida à exaustão pelos canais de TV. Esta forma de classificação é reconhecida mundialmente. Ela é considerada ideal para avaliar o desempenho de cada nação em uma edição olímpica. O que muda um pouco é a forma de fazer a classificação. Pode ser pelo número de ouros ou pelo total de medalhas.

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Só tem um único detalhe importante. Oficialmente, o COI (Comitê Olímpico Internacional) não reconhece a existência de qualquer tipo de classificação entre países nos Jogos Olímpicos. O motivo está na própria Carta Olímpica. Este documento, a “constituição olímpica”, é composto por cinco capítulos e 61 artigos.

A Carta Olímpica estabelece valores e princípios do Olimpismo. A Carta também define direitos do próprio Comitê Olímpico Internacional. Ela estabelece, por exemplo, obrigações para as federações internacionais. Os comitês olímpicos nacionais e o comitê organizador de cada edição dos Jogos também têm deveres definidos.

Competição de atletas, não países

O artigo 6 da Carta Olímpica é bem claro. Os Jogos Olímpicos são uma competição entre atletas em eventos individuais ou coletivos. Não é uma competição entre países. 

Poucos se recordam que uma rivalidade política foi o ponto de partida das mudanças na história olímpica. Foi isso que fez com que o quadro de medalhas começasse a encontrar seu lugar nas Olimpíadas. O grande motivador foi a guerra fria entre a então União Soviética e os Estados Unidos. O primeiro “confronto esportivo” olímpico dos dois países ocorreu nos Jogos de Helsinque-1952.

União Soviética na Vila Olímpica de Helsinque-1952

Parte da delegação da União Soviética na base soviética de Otaniemi, local em que se hospedaram nos Jogos de Helsinque (Crédito: Wikimedia Commons)

Era a estreia dos soviéticos nas Olimpíadas e eles logo trataram de fazer as coisas ao seu modo. “A União Soviética foi aos Jogos e se hospedou em uma base naval soviética em Otaniemi, juntamente com húngaros, búlgaros e checos. Havia um temor de alguma represália já que anos antes a URSS invadira a Finlândia, ferindo o orgulho dos finlandeses”, explica a professora da USP (Universidade de São Paulo) e pesquisadora Katia Rubio, uma das principais autoridades a respeito do Movimento Olímpico no Brasil.

Foi em Otaniemi que os soviéticos tiveram uma ideia. Eles queriam criar uma forma de mostrar sua superioridade em relação aos americanos. “Nessa vila olímpica particular, além das bandeiras da União Soviética havia grandes estandartes com foto de Stalin e um painel, onde diariamente eram computados os resultados dos soviéticos e do outro o resultado dos americanos”, conta Katia. Mas nem tudo saiu conforme o planejado. “Quando os russos perceberam que ficariam atrás, resolveram desmontar o painel”, completa. 

Contagem de pontos? 

Os jornais do mundo todo adotaram a iniciativa soviética. Eles começaram a fazer suas próprias contagens de medalhas nas edições seguintes dos Jogos, ignorando a própria Carta Olímpica. Mas em 1952 havia quem classificasse os resultados olímpicos de outra forma. Segundo Katia Rubio, outro pesquisador olímpico, o jornalista Maurício Cardoso, apontou para a existência de uma contagem por pontos. 

“Diz o Maurício Cardoso que a contagem era proibida pelo COI, mesmo assim todo mundo fazia essa conta. E os pontos eram contados até o sexto lugar. Então a coisa ficava mais ou menos assim: 1º lugar – 10 pontos. 2º lugar – 5 pontos. 3º lugar – 4 pontos. 4º lugar – 3 pontos. 5º lugar – 2 pontos. E 6º lugar – 1 ponto”, detalha a pesquisadora.  

Porém, a iniciativa irritou o americano Avery Brundage, presidente do COI entre 1952 e 1972. Segundo Katia, o dirigente, como que prevendo a polarização entre americanos e soviéticos, criticou as iniciativas de classificação olímpicas.

“Se isso se transformar numa gigantesca disputa entre duas grandes nações rica de talentos e recursos, o espírito olímpico será destruído”, afirmou na época. Depois de Melbourne-1956, ninguém mais pensou em fazer classificação por pontos. 

Atualmente, o COI aceita o quadro de medalhas de forma velada. Este sistema possui problemas e distorções em seu formato atual. Ainda assim, é a melhor forma de apurar o desempenho dos países nos Jogos Olímpicos.

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